Carta a ti, filha, que me fizeste Pai

Olá, meu amor.
Devemos começar sempre uma carta por dizer “Olá”.
Nesta carta a ti, filha, que me fizeste pai, escrita a propósito do Dia do Pai, resolvi tentar dizer-te umas coisas que, pese embora o facto de saber que ainda não as consegues perceber na totalidade, tenho a certeza de que um dia vais ouvir e entender tudo na perfeição.
E, se assim não for, cá estarei para te explicar o resto.

Quando soube que a tua mãe estava grávida jurei ao mundo e jurei-lhe a ela que ia ser o Pai que nunca tive. Que os Dias do Pai haveriam finalmente de ganhar o seu verdadeiro sentido.

Mas antes de avançar importa fazer aqui uma pequena contextualização.

O mau exemplo que me fez odiar a paternidade

foto martim e pedro em crianças

O papá foi “obrigado” a crescer depressa, muito depressa, depressa demais, até, em alguns casos. Mas olha, foi o que foi.

Não me lamento. Não choro por isso. Já não.

Agradeço inclusivamente à vida o ter-me obrigado a dar o passo maior que a perna, mesmo sem saber o que é que isso significava na altura.

E só lamento que nunca me tenham escrito carta alguma.

Vou recuar até 1989. Sim, já lá vai muito tempo, mais de 30 anos.

Na altura o teu tio tinha apenas 3 aninhos.
Quando os nossos pais se separaram (e mais tarde se divorciaram, para bem dos nossos pecados, mas para mal das nossas cabeças), depressa tive de assumir o difícil e duro papel de ser o mano + velho.

E isso implicou ser tantas vezes responsável pelo tio, ser o filho que ajudava a mãe com idas às compras, a levar o pequenote pela mão para a escola, a ir buscá-lo ao infantário e trazê-lo para casa, etc…

(Numa destas vezes consegui perder 5 contos em 50 passos. Na distância de 30 metros que separava a porta da nossa casa da porta do supermercado.)

Paralelamente a isto, o meu pai falhou-nos redondamente.
Vezes e vezes sem conta. Tantas vezes que deixámos de nos dar conta. Tantas vezes que acabou por ensombrar tudo o que de positivo alguma vez tivesse feito.

Felizmente que a vida nos veio dar, anos mais tarde, um pai diferente e que me fez voltar a acreditar que os pais podem ser homens bons. A tua avó teve sorte. Teve, pois.

“Ser pai é muito triste!”

Por volta dos 7/8 anos, e munido do sentimento constante de injustiça e de falta de capacidade de acreditar em tanta mentira que nos era contada e em tanta promessa não cumprida, disse uma coisa à tua avó da qual me recordo até aos dias de hoje e que, muito dificilmente, algum dia irei esquecer.

Numa caminhada completamente inócua, na rua, a caminho de qualquer sítio que não consigo recordar, possivelmente da escola, virei-me para a minha mãe para lhe dizer o seguinte:

– Mãe.
– Sim, filho.
– Mãe, eu nunca vou querer ser pai. Nunca.
– Oh filho, claro que vais. Tu és tão pequenino, ainda.
– Não vou não, Mãe.
– Mas porque é que dizes isso?
– Porque ser pai é muito triste.

A tua avó engoliu em seco e estou certo que lhe vi algumas lágrimas (que prontamente tentou disfarçar) a escorregar-lhe pela cara abaixo perante a força avassaladora daquelas palavras.

E foram tão difíceis de aceitar porque a avó sabia bem a dimensão do sentimento que eu estava a colocar em cada letrinha de cada palavra desta frase.

Aquele dia, aquela conversa, aquele diálogo tão cruelmente verdadeiro ficou-me marcado no pensamento e na memória para todo o sempre.

Só que, como acontece frequentemente na vida de uma criança (e tu és a prova viva disso), as convicções e as afirmações que fazemos quando temos esta idade acabam por ser desmontadas anos mais tarde.

Quando voltei a sentir vontade de ser pai, só sabia que queria que o destino me trouxesse uma menina.

Queria porque queria ter uma menina do papá. Talvez por ter tomado tantas vezes conta das minhas (e tuas) primas pequeninas, talvez por ter crescido muito perto de tantas tias, sentia-me muito mais confortável com a ideia de ser pai de uma menina do que de um menino.

Leonor a subir o monte_agora_nos_os_tres

Talvez até o meu subsconsciente (é uma coisa complicada que te posso explicar mais tarde) me fizesse recusar por completo a ideia de ser pai de um rapaz e de correr o risco de ter um filho que pudesse vir a ser igual ao meu pai… não sei.

Sei, isso sim, que queria ser o teu super-herói, como o de todas as histórias que adoramos.

O teu primeiro exemplo daquilo que deve ser um homem, um Pai, um amigo.

Por isso, quando soube que na barriga da mamã estava uma menina, chorei muito. Se chorei. Sabes bem que sou um lamechas.

Chorei de alegria. De êxtase. De agradecimento divino aos céus. Sei lá eu.

O que sei, e disso não tenho a mais pequena dúvida, é que hoje sou um ser humano completamente diferente do que era antes de nasceres.
Não há qualquer comparação. Não pode sequer haver.

Há um antes de ti e um depois de ti, na história da minha vida.

Obrigado, minha filha.

Tenho que te agradecer. Mesmo que não saibas porquê, eu sei e bem.

Obrigado, filha.

Graças a ti não há dias estúpidos… a não ser aqueles em que ralho contigo e me fico a sentir tão terrivelmente mal, que não descanso enquanto não acordas novamente para te encher de beijos, abraços e mimos sem fim.

Olhar para ti faz-me acreditar que tudo faz sentido.

Amar-te e ser teu pai é a fonte de toda a minha força, de toda a coragem, de tudo o que faço. De tudo o que sou.

Não tens sequer 4 anos, mas ensinas-me todos os dias lições de vida e de amor puro.

Não tens noção do que estamos a viver, mas tens a noção absoluta de que te amo como a nada mais nesta existência desde o dia em que te peguei ao colo e te senti o cheiro.

Une-nos um mundo de amor e uma grande parte do amor do mundo.

E numa altura tão complicada em que fomos e estamos a ser forçados a parar tudo, dou por mim várias vezes, também eu, ali parado a olhar para ti e a sorrir.

A sorrir porque és o sinal maior de que o futuro será melhor do que o presente que agora temos. A doçura com que me abraças as pernas quando estou de pé, em qualquer parte da casa, enche-me de felicidade e dá-me a certeza absoluta de que sabes que sou teu. Sempre. Para sempre.

A forma como me pedes, noite após noite, que fique só um bocadinho ao pé de ti e me abraças e fazes festinhas na careca. Como dizes: “quero o papá”.

Como te desfazes em gargalhadas esgazeadas e loucas.

Como brilham os teus olhos quando se cruzam com a cumplicidade dos meus.

Posso perder tudo.
Posso ter de renascer 100 vezes.
Mas tenho uma certeza absoluta que nunca me abandona: posso garantir-te que nunca deixarei de ser teu Pai. Nunca te vou abandonar ou renunciar a esta minha condição, ao contrário do que fizeram comigo.

É esse o meu tesouro maior.
É esta a obra prima de uma vida.
É este o amor impossível de destruir e de igualar.
É esta a razão que me leva a deitar tarde e a acordar cedo.
Que me leva a sonhar cada vez mais alto e a querer ir mais longe. Mais alto.

E isto, meu amor, isto é talvez aquilo que espelha melhor a natureza do amor de um pai e de uma mãe pelos seus filhos.
É total. É absoluto. É absurdo. É grotesco. É gigantesco. É maravilhosamente perfeito. É meu. E eu sou teu.

Um dia, minha filha, um dia vais perceber tudo isto de que te falo e que agora te parece tão abstracto. Um dia vai chegar esse dia e espero que consigas ouvir ou ler tudo isto e sorrir de felicidade, com a certeza de que tens um pai (e uma mãe, pois claro) que te ama incondicionalmente.

Com a tua mãe formamos um trio de pessoas boas.

De pessoas que privilegiam o amor acima de tudo ou quase tudo.
Porque acima disso, só tu!

Obrigado, filha.

A maior prenda já eu tenho. Estou vivo. Sou feliz. Sou teu pai.

Obrigado, filha.

E, claro, obrigado Ana. Do fundo do meu coração que vos pertence.
Obrigado por seres o amparo de tudo e a mãe mais incrível que ela poderia ter.

E mais logo, antes de me deitar, vou repetir o gesto que faço desde o dia em que entraste pela primeira vez nesta casa, que mais não é do que agachar-me junto à tua cama e dar-te um beijo de boa noite, enquanto te sussurro ao ouvido: AMO-TE MUITO, MEU AMOR!

Para terminar…

… que a carta já vai longa e tu estás atarefada a fazer qualquer coisa mais interessante, certamente….

Resta-me despedir-me e agradecer-te, mais uma vez, por tudo o que dás à minha vida. Por seres minha filha. Por fazeres de mim teu pai.

Tenho a certeza que estamos a fazer um trabalho incrível e só posso agradecer-te e a todas as pessoas que nos ajudam a ajudar-te a crescer assim, linda, meiga, empática, doce, preocupada com as pessoas que amas e um ser humano tão absolutamente mágico e especial que chego a encolher-me com medo que possas sofrer, algum dia, por seres como és.

É que este mundo é um pouco ingrato com as pessoas boas, filha.
Mas isso são conversas para outro dia.

Obrigado, filha.

P.S – Continua a portar-te bem, dia após dia. A ser amiga de quem merece e a fugir de quem nada tem para te trazer que não problemas (dos que não têm graça alguma e não nos ensinam nada de nada).

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