Quando a morte começa a entrar nas brincadeiras

Não é um tema fácil. Não. Claro que não. Afinal de contas estamos a falar de morte. Da finitude inevitável da vida. E o que acontece na grande maioria das vezes, é que os pais tentam abafar ou cortar este tipo de conversas ou de brincadeiras pela raiz. Falar de morte? Nunca! Mas porquê?

Porquê? Não me parece que seja uma pergunta de resposta difícil.
Para além do mais, ninguém gosta de admitir/perceber que a morte faz parte ou começou a fazer parte das brincadeiras dos filhos.

Quem é que quer ver os filhos a falar de morrer, mesmo que seja em brincadeiras de representação simbólica – o famoso faz de conta? Ninguém.

Quem é gosta de ver a morte entrar nas brincadeiras dos filhos? Ninguém. Ou quase ninguém. Embora neste caso concreto me atrevesse a dizer que ninguém gosta.

Assim, há coisa de umas semanas reparei que a Leonor começou a usar a palavra morte (e outras mais da mesma família) com alguma frequência nas suas brincadeiras, tanto sozinha, como nas brincadeiras que ia fazendo comigo ou com a mãe.

A princípio, tanto um como o outro, fomos procurando contornar o assunto, mudar de conversa, mudar de brincadeira, dizer-lhe coisas como:

“Oh filha, ninguém precisa de morrer. Credo!”

“Nonô, não morreu nada. Só caiu para o chão!”

Mas a pouco e pouco, porque tenho sempre muita curiosidade em perceber o funcionamento daquela cabecinha mágica, fui deixando que ela levasse a cabo as suas brincadeiras e que me fosse falando um pouco mais sobre a sua ideia de morte.

Importa dizer que a Ana acha isto tudo muito giro, mas ainda lhe custa muito a ideia de ter este tipo de conversas com a Leonor.

Fugir da morte a sete pés

Ora bem, caso ainda não se tenha dado conta, é muito isto que fazemos enquanto pais. Fugimos. Não é?

Aliás, sendo uma conversa de que poucas pessoas gostam, e em que quase ninguém se sente à vontade para ir mais além e para deixar que os filhos partilhem as suas ideias à volta do tema, regra geral o que acontece é que acabamos por pôr fim a uma de duas coisas, ou à conversa ou à brincadeira.

Eduardo Sá diz-nos que nenhum de nós sabe lidar com a morte e que somos extremamente incapazes de abordar o assunto, acabando por “chutar para canto” toda e qualquer tentativa dos mais pequenos de falar sobre o assunto.

Posto isto, imediatamente passamos para a conversa típica de que a pessoa que morreu foi para longe e agora é uma estrela que olha por nós. (sendo que isto não tem nada de mal.) É a forma amorosa e protectora que encontramos para falar sobre o assunto com as crianças, em particular quando a morte nos entra pela casa adentro.
Nem mesmo quando chegamos a adultos a coisa se torna mais fácil, diz Eduardo Sá. O psicólogo chama-lhe “o realismo possível”.

A morte faz parte da vida

Crianças a brincar e quem perde morre

É também esta uma das razões pelas quais Eduardo Sá diz que não ganhamos nada em levar crianças a cemitérios e funerais. “Por serem imagens brutais e violentas que não trazem nada de positivo à vida das crianças”.

Contudo, aquilo que me traz a este texto não é a morte propriamente dita, a perda de alguém, o desaparecimento físico de um ser humano que nos é querido. Nada disso.

Aquilo que me traz a este texto é precisamente a constatação da chegada da morte às brincadeiras das crianças, ao mundo em que estão a começar a perceber que vivem.

E no mundo em que vivemos a Morte faz parte da vida. É, aliás, a única coisa que temos como certa ao longo da nossa existência. Que tudo isto tem fim. Que um dia, seja lá de que forma for, todos nós vamos desaparecer do mundo dos vivos.

Falar com eles é fundamental

Como em tudo nesta vida, é a falar que nos entendemos.
Por isso, procuro sempre fazê-lo com a Leonor. Conversar. Ouvir o que ela está a dizer e, sobretudo, dar-lhe espaço para que ela me explique o que lhe vai na cabeça. Isto contribui muito para que haja uma noção de respeito mútuo. De compreensão. E isto tem efeito directo na educação deles. Na forma como eles se vão posicionando na vida em sociedade que vão aprendendo, muito por nossa causa, a conhecer.

(sugiro a leitura deste artigo sobre o comportamento dos nossos filhos)

Os desenhos animados, os filmes, os colegas, a vida… tudo isto contribui para que ela vá, a pouco e pouco (bem mais depressa do que acabamos por estar preparados), descobrindo que a morte é um acontecimento mundano e que várias pessoas conhecem e sobre a qual falam.

Brincadeiras com a morte

Assim, não é de espantar que, a caminho dos 4 anos e sendo a Leonor uma menina com um vocabulário muito rico e que o sabe usar para o que quer e quando quer, a morte vá aparecendo nas brincadeiras e nas suas conversas.

Ou é o boneco que cai do sofá e morre. Ou é o peluche que cai da cama e morre.

Ou é a personagem do filme que cai numa ravina e morre. Ou é simplesmente a teatralidade da vida que a faz perceber que morrer é ficar deitado, imóvel, de barriga para baixo… tudo isto tem de ser falado. Tem de ser discutido. Tem de ser respeitada a posição deles. Tem de lhes ser explicada a realidade da forma mais simples e fácil de perceber e, coisa muito importante, da forma que lhes seja mais confortável a eles, não a nós.

Papá, eu estava morta

Há umas semanas chegámos à escola para a ir buscar e, qual não é o nosso espanto quando nos aproximamos da porta da sala e a vemos deitada no chão, de barriga para baixo, com a mão debaixo da testa (só para não ter a cara no chão), lado a lado com um dos seus melhores amigos, o Tomás.

A morte nas brincadeiras

Quando nos viu levantou-se e lá veio a correr até nós. Depois de termos ido buscar a mochila e o casaco e enquanto caminhávamos para o carro resolvemos perguntar:

– Filha, o que é que estavas a fazer ali deitada no chão?

– Então… eu e o Tomás estávamos mortos. Casámos e depois morremos no chão. É assim que se morre, papá.

(Nem sabia o que dizer… só me parecia que estava a ouvir um relato de uma espécie de Romeu e Julieta versão jardim de infância. Não é?

O que é que dizemos a uma resposta destas? Nada. Engolimos em seco e elogiamos a brincadeira, agradecendo aos céus o facto de termos uma menina assim. Não é ciência quântica, mas é o que fazemos por aqui.

Aceitar, entender e continuar a conversa

Nonô a brincar e a fingir que está a morrer

No fundo é isto que temos de fazer, enquanto pais e agentes principais da educação dos nossos filhos – aceitar, entender e continuar as conversas. Doa o que doer.
É preciso perceber onde é que a conversa vai dar e mostrar-lhes que podem falar connosco sobre tudo. Sem rodeios.

Quanto à morte em particular, quando melhor conseguirmos falar com eles sobre o assunto, mais depressa eles vão perceber que de facto a morte é triste, claro que é, é dolorosa, não pode ser de outra forma quando morre alguém de quem gostamos, mas que faz tudo parte desta maravilha que é a vida. Não é?

Poucas coisas têm tanta influência no crescimento de crianças saudáveis como as brincadeiras informais que elas fazem, diariamente, umas com as outras. Assim, o melhor mesmo é deixá-los brincar. É a melhor coisa que eles podem fazer na infância. Nunca duvide disto.

Por isso, quanto menos interferência tivermos na condução dessas brincadeiras, quanto mais formos capazes de lhes dar a autonomia que eles precisam, melhor.

Moral da história

Não nos podemos esquecer em momento algum que a morte faz parte da vida. É tão básico que quase chega a parecer ridículo que a moral da história se centre nesta frase inequívoca, que a morte faz parte da vida.

Deste modo, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, as crianças se apercebam deste facto e que comecem a introduzi-lo nas suas vidas. Por isso, só há uma coisa a fazer: aceitar tudo isto com naturalidade e leveza e não fugir ao assunto. É um caminho. Pode não ser o mais fácil, mas é certamente o caminho a percorrer.

Resumindo e concluindo, a boa comunicação com as crianças vai trazer benefícios a longo prazo. Não duvide disto nem por um instante. Ok?

P.S – neste texto não quis, naturalmente, falar sobre as situações mais complicadas de mortes na família. Essas merecem uma atenção diferente e uma preocupação natural e redobrada e, em momento algum, quero levar este texto para esse território.

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