As histórias que (os) fazem crescer

Não é à toa que costumo abrir as minhas formações de Storytelling com a frase de Steve Jobs – um dos mais incríveis contadores de histórias que o mundo dos negócios conheceu:

The most powerfull person in the world is the storyteller”

Faço-o porque acredito muito, mas mesmo muito nessa ideia. 

Acredito, muito convictamente, que as histórias são absolutamente imbatíveis no que toca a transmitir ideias, mensagens, exemplos, até coisas que queremos ver alcançadas por terceiros.

Faço-o porque considero que, naquelas horas em que tenho aquelas pessoas à minha frente, tenho um privilégio enorme – tenho a sorte de poder falar-lhes ao ouvido – mas mais do que isso, tenho a sorte de poder falar-lhes ao coração, explicando-lhes porque é que tão importante olharmos para as histórias como muito mais do que uma brincadeira (para crianças) ou simplesmente como uma forma de entretenimento.

“Mas oh Martim, são só histórias para crianças…”

Sim. 

São histórias para crianças. Mas já pensou em quantas dessas histórias para crianças conseguimos reconhecer partes da nossa infância? Da sua vida?

Deixe-me mostrar-lhe exactamente o que estou a tentar dizer:

Já alguma vez lhe passou pela cabeça que a história do Capuchinho Vermelho, por exemplo, ensinou a tantas crianças deste mundo que não devem meter-se em atalhos? Que devem seguir as recomendações dos pais? Que não devem aceitar coisas de estranhos? Que devem suspeitar de alguém que nunca viram mas que lhes está a prometer este mundo e o outro?

Ou, noutro exemplo igualmente famoso e que nos povoou o imaginário durante anos a fio, que tantas terão sido as Gatas Borralheiras/Cinderelas que acreditaram que um dia poderiam ser felizes, respeitadas, amadas, valorizadas, sem terem de ouvir insultos e desconsiderações dia após dia?

E quantas meninas/mulheres deste mundo sonharam ser aquela bela, incrível, maravilhosa e doce Branca de Neve?

Enfim, o nosso cérebro está literalmente “programado” para reagir às histórias e para se ligar às dores e aos problemas com que os protagonistas das histórias se vão cruzando.

Para além disso, o nosso cérebro está igualmente “programado” para outra coisa igualmente fundamental na vida de cada um de nós: para sonhar!

Assim sendo, é fácil perceber porque é que nunca nos esquecemos do Tom Sayer, do Songoku, do Bugs Bunny, do Coiote e do Bip Bip – sim, nunca lhe consegui chamar Papa Léguas – ou do Poupas e do Ferrão, da Bela, do Monstro, da Lebre e da Tartaruga, da Cigarra e da Formiga, podia passar a tarde nisto… mas daqui a pouco a Leonor acorda da sesta e lá se vai o texto.

Por isso, sim, são só histórias para crianças – que mais não querem do que brincar.

Mas elas marcam-nos de uma forma tão esmagadora e perene que nem sequer nos apercebemos que assim é. Precisamos que alguém nos diga que assim foi para que nos entreguemos às memórias e às recordações e assim percebermos, através dessa viagem magnífica à nossa infância – e que podemos fazer sem sequer sair do sofá – que, de facto, as histórias que ouvimos na nossa meninice fizeram bem mais por nós do que aquilo que alguma vez julgamos ser possível.

A inspiração que aqueles heróis nos dão através das dificuldades que enfrentam

Todos eles, do Super-Homem, ao Batman, ao Homem Aranha, ao Francisco, ao João, à Maria, à Rosa ou à Ana.

Em todas as histórias que nos inspiram existem momentos de conflito (sem os quais as histórias não têm qualquer interesse) em que os protagonistas são postos à prova e enfrentam desafios que parecem, à partida, impossíveis de ultrapassar.

São as viagens que essas personagens fazem e os caminhos que percorrem rumo a um “mundo melhor”, que nos fazem estabelecer uma empatia imediata com as mesmas.
Aproximamo-nos dessas personagens porque nos identificamos com as tormentas, com as lutas, com os contratempos pelos quais todos nós passamos durante esta maravilhosa aventura da existência.

E começamos bem cedo a embarcar nestas histórias que vamos primeiramente ouvindo e depois lendo.
Essa é, não tenho a mais pequena dúvida, uma das maiores, se não mesmo a maior riqueza que a Humanidade conserva.

Contar o mundo através das palavras, das emoções, das lutas, das vitórias e das derrotas que compõem as histórias de vida de outras pessoas e que, inevitavelmente, acabam por nos fazer acreditar que também nós seremos capazes de passar por coisas difíceis e sair por cima, ou que, em determinadas alturas, também nós vamos perder, vamos sair derrotados e que é fundamental que saibamos lidar com isso. Faz parte da vida.
Faz parte do processo de aprendizagem em que se traduz a nossa própria existência.

A ponte para a nossa própria vida

Quanto mais cedo os nossos filhos conseguirem fazer esta ligação e esta transposição das histórias para as suas próprias vidas, mais cedo vão perceber que viver é um privilégio absolutamente extraordinário.
No entanto, se a nossa vida não for, também ela, polvilhada por momentos de dificuldade, dificilmente seremos capazes de lhe dar ainda mais valor, e dificilmente seremos capazes de retirar dessas dificuldades as lições e conclusões necessárias para que possamos crescer mais fortes.
Mais resistentes. Mais hábeis. Mais capazes de enfrentar a vida, com tudo o que isso significa.

No fundo estamos, com esta simples mas tão importante “brincadeira”, a mostrar-lhes como é o mundo, a dar-lhes ferramentas para sobreviverem. Somos animais, todos nós, o que significa que, tal como todas as outras espécies, o nosso primeiro instinto é o de garantir a sobrevivência das nossas crias.

As histórias fazem a ponte com o passado, com o presente e com o futuro

Queremos que elas sejam mais capazes de, no futuro, decidirem o rumo que vão dar à sua passagem por aqui.

É incrível como podemos fazê-lo de forma muito mais eficaz – e presente – se lhes formos contando histórias, não só as dos livros, mas as nossas próprias histórias.

Quando estamos a contar e a partilhar histórias da nossa própria vida, tendo sempre a preocupação de lhes deixarmos um final que os motive e ensine qualquer coisa, estamos a mostrar-lhes as nossas fragilidades mas também as nossas forças e qualidades.

Sendo nós o exemplo que os nossos filhos seguem, nada melhor do que partilhar com eles exemplos reais, palpáveis e significativos para as suas vidas, de momentos da vida dos pais em que foi preciso acreditar, foi preciso resolver problemas, foi preciso perceber como e de que forma é que ultrapassámos determinado obstáculo e o que é que aconteceu depois disso.

Tudo isto é educação! Tudo isto é, acima de tudo, uma contribuição decisiva para a formação dos nossos filhos, sobrinhos, afilhados, netos, bisnetos… por aí fora. Mesmo quando o tempo é curto, quando temos de trabalhar muito, há sempre tempo para uma história, nem que seja antes de deitar.

Ainda hoje me recordo com detalhe dos momentos em que a minha avó paterna (que já morreu há quase 20 anos) me contava histórias, me enchia o imaginário de personagens, situações, conflitos, problemas e dificuldades, para depois acabar tudo em bem. Ficou cá tudo. As histórias são passado, presente e determinam, muitas vezes, a forma como vamos abraçar o futuro.

Esta é a sua grande força. Elas ficam. Elas perduram no tempo e acompanham-nos pela vida fora. Não nos deixam sozinhos. E mesmo quando julgamos que estamos sozinhos… não estamos. A nossa própria história está sempre ali. À distância de um pequeno esforço para nos lembrarmos delas.

Conclusão

Em 2013 tive um cancro!
Como é óbvio, este facto mudou para sempre a forma como vejo a vida e como olho para tudo. Acha mesmo que posso deixar uma história destas de fora daquilo que é a história da minha vida?
Faz ideia de quantas vezes é que já contei esta história?

Este é o segredo.
Abraçar os dramas que vivemos com a mesma força com que abraçamos as alegrias. Retirar dos mesmos a lição que nos fez ser maiores e mais fortes; passar esse testemunho a terceiros com a certeza de que um dia, quando nem sequer imaginarmos, a nossa história estará a ajudar alguém que esteja a passar por dificuldades semelhantes às que nós já enfrentámos.

Se assim for, já terá valido a pena ter partilhado a nossa história. E quer saber a melhor coisa no meio de tudo isto? Não custa 1 cêntimo que seja!

Agora vá! Vá contar histórias aos pequenotes, aos menos pequenotes, aos amigos, aos colegas, ou a quem quiser. Vá, com a certeza inabalável de que está a contribuir para que a vida dessas pessoas se encha de melhores momentos.

Se tiver alguma sugestão ou alguma ideia que nos queira deixar a propósito deste texto, por favor deixe aqui o seu comentário.

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