Texto sobre a ausência e as saudades que os filhos têm dos pais

“Tenho saudades tuas, papá!”

Assim.
Sem mais nem menos. “Tenho saudades tuas, papá!”
Com a candura ingénua de uma criança que ainda não tem 3 anos, mas que tem uma particularidade, a meu ver, assinalável: é de uma sensibilidade e de uma grandeza de espírito que impressionam.

Este último ano teve muito que se lhe dissesse. 

Foram 365 dias difíceis para mim, para a Ana e, sobretudo, para a Leonor. Porquê? 

Porque o pai passou muito tempo fora. Tempo demais. Percebo agora.

A entrada numa empresa nova e num projecto novo deixava antever que não seria fácil, que seria preciso adaptação e compromisso; paciência e sacrifício, rumo a um bem maior, no nosso caso particular, o bem maior consiste exactamente no facto de acreditarmos que estamos a fazer aquilo que está certo e que vai ditar o nosso futuro.

1 ano depois, o balanço

Foto: Rogério Esteves

Saímos os dois da SIC, há 1 ano.
A Ana continua feliz da vida. 
Já eu terminei a minha ligação à empresa onde estava e estou agora à procura de um novo desafio.

Mas como estava a contar-vos, foi um ano incrível, muito dinâmico, onde tive a felicidade de conhecer muita gente boa, mas foi, também, um ano em que estive mais longe de casa.

A Ana passou a ter de lidar, mês após mês, não só com a distância e com o fazer tudo sozinha em casa, mas com o facto de não me ter ali para acompanhar e presenciar o crescimento de diário da Leonor, nas mais pequenas coisas. 

E houve muitos dias em que eu saí de manhã e só cheguei à noite, ou em que saía de manhã e só chegava na noite do dia seguinte, já com a casa inteira a dormir sossegada, mas ansiando a chegada do papá.

E, caramba… houve dias difíceis. Se houve.

Dias em que a saudade apertou, mas pior do que isso, dias em que o sentimento de culpa me consumiu até às profundezas do meu ser, o que, posso dizer-vos, não é sensação em nada agradável. Chega a queimar. Chega mesmo.

Coragem para dizer: chega!

No meio deste processo de gestão de sentimentos falei com a Ana e perguntei-lhe novamente – como se já não soubesse a resposta e precisasse que ela me avivasse a memória: Porque é que saíste da SIC e aceitaste a proposta do Sítio do Bebé para trabalhar a partir de casa?

Para estar mais perto e mais disponível para a Leonor; para ter mais tempo para ela; para poder vê-la crescer com mais calma, sem o corre-corre dos dias loucos em que vivemos. 

Não me arrependo por 1 segundo.

Hoje em dia consigo descobrir a Felicidade nos momentos que, às vezes, consideramos mais “pequeninos” e mais simples. Ir buscá-la à escola e poder entrar na sala dela e sentar-me um bocadinho no chão para acabar de ouvir a história que a Joana lhes está a ler; não estar sempre a olhar para as horas; poder acordá-la com tempo e sentir que estou ali, de corpo e alma. Isto tornou-me mais leve. E isso é bom, sabe bem.

Pois… bem me queria parecer. Já para não falar que a mamã deixou de trabalhar fins-de-semana e feriados como se não houvesse amanhã.

No entanto, achei que podia enriquecer ainda mais este texto ouvindo alguém que senti que precisava de ouvir alguém de fora, alguém que tenha atirado tudo para trás das costas quando ouviu da filha mais velha, algo muito semelhante e que a fez sentir-se muito, mas muito mal mesmo.

Estou a falar da Joana Paixão Brás, uma das autoras do blog A Mãe é que Sabe, sobejamente conhecido de todos aqueles que consomem conteúdos ligados aos primeiros anos de vida dos mais pequenos e que, também ela, deu um pontapé na vida que levava até então, para abraçar o desafio e a vontade asfixiante de estar mais perto da(s) filha(s).

Para a Joana foi simples:

“Mudei de vida porque não estava a conseguir ser a mãe que sempre tinha sonhado ser. Sentir, numa semana inteira, que a minha filha me chamava durante a noite aos gritos e me agarrava para eu não fugir, foi quanto bastou para perceber que eu não podia estar ali apenas durante a noite.
Ela (a Isabel) tinha 1 ano e meio e não me sabia dizer que tinha saudades, mas palavras para quê? Estava ali tudo. No corpo, na respiração.

No final dessa semana tinha a minha decisão tomada. Nunca me arrependi. Nunca. Nunca senti que o que estava a perder era maior do que vê-la, de manhã, a tomar o pequeno-almoço, brincar com os cães e ainda ter tempo para apanhar uma flor para me dar.

Quando fui mãe da Luisa, fui a mãe que sonhava ter sido para a Isabel. Foi como uma espécie de renascimento.”

Será que podemos mesmo compensar a ausência?

Texto sobre a ausência e as saudades que os filhos têm dos pais agora_nos_os_três

Queremos convencer-nos a nós próprios com as habituais justificações que gravitam em sempre em redor de frases que dizemos em surdina e que são mais ou menos assim:

– “eu compenso-a no fim-de-semana…” 
– “depois vamos aqui, ali, acolá…”
– “ela ainda é pequena e não tem noção…”
– “nas férias vamos viajar…”
– “sempre que vou para fora trago-lhe um presente, por isso está tudo bem…”
– “isto é apenas uma fase. Depois acalma.”
– “é o que é, faz parte.”
– “temos de aceitar a vida como ela é…” 

 Dá para ter uma ideia, certo? Penso que sim.

Os exemplos que deixei aqui em cima fazem parte de um rol de coisas que todos nós dizemos, em alguma altura da nossa vida, para tentarmos que doa menos. No fundo é exactamente isso que tentamos fazer.
Tentamos que nos doa menos. E atenção, para que não fiquem dúvidas vou repetir o que disse neste parágrafo, “TODOS NÓS DIZEMOS” este tipo de coisas. Todos nós somos falíveis e fazemos o que fazemos, regra geral, com a melhor das intenções.

Mas que ninguém se iluda, fazemos o que fazemos para que as coisas nos custem menos. Para que nos pareça menos mau.
Para que pareça que, na verdade, até estamos a fazer a coisa certa… mas se pensarmos e pararmos para olhar para tudo isto a fundo, somos capazes de perceber com relativa facilidade que isto da compensação é uma falácia. Que não há – nem pode haver – compensação para a ausência. Não há.
Não funciona desta forma.

Lamento desiludir quem acha que é assim que as coisas se fazem, mas não é. Não é, mesmo!

Como é que sou capaz de me atrever a dizer uma coisa destas?
Porque sei exactamente o que estou a dizer, quanto mais não seja porque passei por isto. Vivi-o e senti-o na pele, quando era criança.

Para além disso estudei muito.
Falei, ao longo da última década, com várias pessoas ligadas a processos educativos e com professores.
Não estou a fazer uma afirmação científica, estou a partilhar consigo a minha crença, a minha mais profunda convicção, que é mais do que uma opinião ou uma espécie de amargura recalcada. Nada disso.

A ausência só pode ser compensada de uma e uma só forma: com presença!

O que eles dizem, escreve-se?

Texto sobre a ausência e as saudades que os filhos têm dos pais agora_nos_os_três

Pode uma criança de 2 anos dizer convictamente, com todo o sentimento que consegue emprestar a uma frase, “tenho saudades tuas, pai!” e querer com isso dizer exactamente aquilo que nos está a tentar manifestar?

No fundo o que ela me está a tentar dizer é que sente claramente a ausência. Expressa-se como pode e encontra, no alto do seu imenso vocabulário, uma forma de me transmitir aquilo que sente.

E dizer-me, repetidas vezes “gosto muito de brincar contigo, papá! Meu super pai” enquanto me segura a cara entre as suas duas mãos e me dá um beijinho no nariz, não pode ser apenas visto como um gesto de carinho espontâneo de uma criança para com o seu pai.

É mais do que isso. É a minha filha a querer dizer-me que gosta muito de estar comigo e que precisa de estar comigo por mais tempo. Durante mais tempo. Ela precisa. Eu também.

Não é à toa que, todos os dias, ela me pede para ficar um bocadinho ao pé dela antes de adormecer e depois de lida a história da noite. Dia após dia, após dia. Quer o pai. E precisa do pai. Muito

Poderemos nós, os pais, ignorar estes sinais – que se vão tornando por demais evidentes – de que estamos a fazer alguma coisa de errado?
Podemos nós continuar a acreditar que, muitas vezes, o seu “mau comportamento” não é também fruto dessa ausência? Não.

Poderemos sequer acreditar que não estamos a fazer nada de errado, quando, ao olhar para dentro dos olhos dos nossos filhos, vendo-os lá em baixo, 1 metro abaixo do nosso olhar fugidio, ouvimos o que nos dizem (e o que não nos dizem…) sem sentir no peito a dor própria da responsabilidade? A resposta parece-me mais que óbvia: N-Ã-O!

Considerações finais

Por isso, se é que sequer mo permitem, deixo-lhe um conselho em jeito de conclusão. Pense. Pense mais. Pense muito. Pense no que está a fazer.
Pense, acima de tudo, se vale a pena. Se vale a pena a dor, o sofrimento, a revolta, a infelicidade, o sentimento de culpa, tudo isto em troca de… mais uns euros no final do mês.

Os nossos filhos não precisam de mais dinheiro. Precisam de nós.
E só de nós.

“Isso tudo”, por muito pouco que lhe possa parecer, é tudo aquilo que eles querem e procuram e que, muitas vezes, acabam por lhes ver recusado.

Por isso, para o que falta do ano… e da vida, pense um bocadinho melhor no que anda a fazer na sua relação com o trabalho. Com a vida. No final de contas, quem ganha são aqueles que mais precisa de ganhar – os nossos filhos.

Claro que é importante que eles digam: “tenho saudades tuas, papá/mamã”, que queiram aproveitar todo o tempo do mundo com os pais, é importante e saudável.
Mas que seja por motivos válidos e não somente porque queremos ganhar mais dinheiro para lhes comprarmos mais coisas.

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