Artigo no blog Agora Nós Os Três sobre o comportamento das crianças

As crianças são malcomportadas ou mal-educadas. Em que é que ficamos?

Esta é, muito provavelmente, uma das designações mais comuns que ouvimos atribuir às crianças espalhadas por esse mundo fora. As crianças serão mesmo malcomportadas? São seres que vieram ao mundo para nos azucrinar a paciência? Para a testar até aos limites do humanamente possível? Não seremos nós, os adultos, que rapidamente nos esquecemos do que significa ser criança e perdemos a paciência por coisas ridículas?
Talvez não seja um exercício assim tão descabido pensar nisto durante algum tempo.

Frases como:
“Ai que menino(a) malcomportado(a)”;
“Os paizinhos devem permitir que faça o que quer, lá em casa.”
;
“Credo! Que falta de educação” são tão comuns e estão de tal modo enraizadas na nossa sociedade que acabamos por não lhes dar a importância que realmente devíamos e da forma que devíamos.
Por isso, a questão que quero lançar hoje é precisamente esta: afinal de quem é a culpa?

Todos nós, sem excepção, passamos por momentos mais tensos e difíceis na educação dos nossos filhos. O stress, o cansaço, as preocupações, noites mal dormidas e os problemas decorrentes da vida adulta retiram-nos, não poucas vezes, a capacidade de nos mantermos serenos e confiantes nas alturas em que os nossos pequenotes fogem daquilo que esperamos que sejam os seus padrões de comportamento. E este é, a meu ver, um dos grandes problemas, ou seja, os padrões que achamos adequados não correspondem, regra geral, aos desígnios e vontades de uma criança em fase de crescimento.

Da repreensão ao castigo e ao faz o que te digo

Antes de mais importa perceber que a razão principal pela qual os pequenotes fazem asneiras é porque estão a tentar fazer com que reparemos neles.

Se somos tão céleres em dizer que, em idade adulta, só aprendemos se errarmos; que os erros têm uma enormíssima vertente pedagógica, que é preciso fazer mal para perceber como é que se faz bem; porque razão somos frequentemente intolerantes para com o mau comportamento das crianças?

Por estarem a crescer a uma “velocidade assustadora” – como tantas vezes gostamos de dizer -, elas precisam urgentemente de explorar o ambiente em seu redor e de dar largas à sua incrivelmente inesgotável capacidade imaginativa.

Os nomes que lhes chamamos

Quanto mais destemidas, curiosas, atrevidas e despreocupadas são as nossas crianças, maior é a probabilidade de serem automaticamente carimbadas com os adjectivos que todos nós reconhecemos:

Más, feias, irrequietas, hiperactivas, malcomportadas, mal-educadas, pequenos diabos, monstrinhos, pestes, só faz asneiras, “está numa faaaase… reguilas (um dos mais simpáticos) e por aí fora.

E se lhe disser que, na grande maioria das vezes, quando uma criança se “porta mal” está a fazê-lo de forma inconsciente? Sim. Está a testar, porque o seu instinto lhe diz para ir, para forçar, para querer mais, fazer mais, brincar mais. Está a aprender a conhecer os seus próprios limites e também os limites impostos, na grande maioria das vezes, pelos pais e/ou pelos outros adultos de referência com quem convive numa base diária e com quem define as linhas do que pode e não pode fazer.

Já tinha pensado nisto?

Quantas vezes costuma parar, respirar fundo e pensar que também já foi criança?

Lembre-se que os seus pais, tios, avós, educadores, professores também não tiveram dias e vidas fáceis. Certo? Pois é. Quase que podia apostar que já se deve ter lembrado da célebre e mítica frase “filho és, pai serás” algumas vezes. E há outra, também célebre, que remata quase sempre as histórias que contamos sobre os problemas que vamos tendo com os miúdos. A inevitável, “faz parte”. =)

E nós, o que é que fazemos?

Posso dizer-lhe que cá em casa acontece com frequência tentarmos terminar uma birra da Leonor com um abraço. Com carinho. Com conforto. E olhe que resulta.

95% das vezes resulta quase que de imediato.

E se ela faz birras!! – e ainda bem que as faz… quer dizer, há vezes em que apetece abaná-la e dizer-lhe coisas.

Deixo-vos um relato fiel de uma situação que acontece assim, digamos que… quase todos os dias, nos minutos que antecedem o banho:

– Filha, já viste o quão ridícula estás a ser?
– mas eu quero tomar banho na banheira paquenina (que é, na verdade, a única banheira da casa).
– Não, filha. Não podes tomar banho na banheira paquenina (temos de alinhar nestas coisas – repetir algumas palavras da forma como eles o fazem – para o bem da Humanidade) hoje, filha.
– Mas eu quéééééééérooooo.
– Eu sei que tu queres… mas não vai acontecer, filha.
– Eu que-ro-a-mi-nha-mããããããeee.
– Pois, filha, mas a mãe está a fazer o jantar.
– Mas eu que-ro-a-mi-nha-mããããããããeeee.
– Pois, mas é o pai que te vai dar banho, filha. A mãe, tal como eu já te disse, está a fazer o jantar.
– Na banheira paquenina, papá? Posso? Por favor! Papá, eu estou a pedir por favor…!
– Isso é no fim-de-semana, filha.
– Hoje é fim-de-semana, pai?
– Não, filha. Hoje é quarta-feira.
– O que é hoje, pai?
– Já te disse, filha, agora mesmo. Hoje é quarta-feira.
– Não, pai. O que é hoooje?
– Mas o que é hoje, o quê? Não estou a perceber, filha.
– O que é hoje o jantar?
– Leonor, já estás a mudar de assunto… vamos tomar banho imediatamente, já chega de conversas.
– Na banheira paquenina?
– Não, Nonô. Na casa de banho do quarto dos pais. No duche. Com o chuveiro.
– Mas eu nããããooo quééééro.
– Vá, vamos embora. À minha frente, se faz favor. Ai a menina!
– Eu que-ro-a-mi-nha-mããããããããe. (já em cima da cama dos pais)
– Vá, vamos lá a tirar a roupa.
– Pai, vamos fazer brincadeiras. Quero dormir na tua cama. Apaga a luz, pai.
– Dormes depois do banho, anda. Já são 20:00.
– Oito horas? Mas oh pai. Ainda é cedo. Vou dormir, apaga a luz.

(o que é que acontece?… – claro que apago a luz, como é óbvio. Acha mesmo que sou louco ao ponto de contrariar diariamente uma coisa que, na verdade, não tem assim grande importância?).

– Esta miúda dá-me conta da existência.
– Conta do quê, pai?
– Já acordaste???
– Já acodeeeeei, pai. Acende a luz, pai!
– Como?
– Se faz favor, pai.
– Vamos embora para a banheira.
– Espera, pai. Tenho de ir dizer uma coisa à minha mãe.

(e lá vai ela, qual Mogli, a correr – como veio ao mundo – desalmadamente em direcção à cozinha para dizer à mãe as seguintes palavras:
– “tu milhaste o tapete todo!! Ouviste? Tu milhaste o tapete todo.”

A Ana finge que vai atrás dela e lá vem a Mogli disparada pelo corredor adentro para se vir esconder entre as minhas pernas.)

– Bora, Leonor. Prá banheira. Já chega de palhaçadas.
– Já vou, pai.
– Não é já vou. A água está a correr. Anda embora.
– Está bem, pai. Já fui dizer à minha mãe que ela milhou o tapete todo.

Evitar o confronto quando nada o justifica

E digo isto porque já aconteceu, como é óbvio.

Claro que já entrei em confronto com ela centenas de vezes e claro que resulta – na grande maioria dessas vezes – sempre numa choradeira pegada, ranho no nariz, baba – aquelas coisas boas de uma birra a sério – mas que acabam com abraços, beijinhos, papel higiénico (para o nariz, entenda-se) ou água e pedidos de desculpa. E depois perguntamos:

– Nonô, o que é que aconteceu na casa de banho?
– Eu fiz uma ganda birra.
– Já passou?
– Sim.
– Então dá cá um beijinho ao papá. E um abraço. (chuackkk) Booooaaaaa, filha.

O pormenor que faz a diferença?

O simples facto de nos colocarmos de cócoras ou de joelhos no chão e ficarmos ao nível dela, olhos nos olhos, ou mesmo olhando de baixo para cima, durante uns instantes, fá-la acalmar-se. E “desabafar” sobre o que lhe vai na alma. =)

Claro que há dias difíceis. Pelo amor da Santa, somos todos humanos e a paciência tem limites. Só muda é o nível de tolerância dentro de cada um de nós. Porque de resto, não se iluda, somos todos muito parecidos.

Dizia eu que há dias em que perdemos a paciência com muito mais facilidade.

Dias em que estamos cansados, stressados, chateados, frustrados, irritados, preocupados, doentes, cheios de noites mal dormidas que, naturalmente, são dias em que quebramos com maior facilidade.

Dias em que ralhamos.
Dias em que barafustamos.

Em que tentamos ignorar as birras, em que somos mais ríspidos, mais mal encarados. #quemnunca?

E depois há a premissa básica de que cada criança é diferente da seguinte.

Os irmãos são diferentes. Os primos. Os amigos. Até os gémeos verdadeiros são diferentes entre si. Por isso, um conselho de amigo é mesmo o de tentar evitar as comparações frequentes entre irmãos e até mesmo com os amigos. Seja qual for a idade em questão.

Se os respeitarmos pelo que são, estamos a ajudar a formar um muito melhor e mais confiante ser humano. Disso podem ter a absoluta certeza.

O psicólogo Eduardo Sá diz que, muitas vezes, quando estamos a castigar uma criança que está a fazer uma birra, somos nós, os adultos, quem começa depois a fazer birra e a amuar. E isso só nos mostra que, na verdade, somos muito mais imperfeitos, enquanto adultos, do que as nossas crianças, que estão a ser aquilo que têm naturalmente de ser… crianças.

E é esperado das crianças que sejam assim mesmo, reguilas, traquinas, rebeldes, desafiadoras, que testem os limites para os conseguirem perceber, que errem para aprenderem depois a acertar.

A inegável importância de saber dizer “Não!”

Aqui, Eduardo Sá não deixa margem para dúvidas:

“Mesmo que haja determinados nãos que magoem os nossos filhos, isso não é dramático. Magoá-los um bocadinho não significa maltratá-los. E é nesse sentido que a zanga é também uma forma de afeto, é uma forma de amor.”

Eduardo Sá

Se pensarmos nisto com a lucidez e a clarividência necessárias, percebemos de imediato que, nos dias de hoje, há a clara noção de que somos pais muito mais permissivos do que foram os nossos pais.
Mas será que isso é necessariamente uma coisa má?

Como tal, devemos ter especial cuidado em tentar não etiquetar a criança como “má” ou submetê-la a constantes castigos.
Não servem assim de muito. Pois não?
Até porque se banalizamos o castigo o mesmo passa a ser absolutamente inócuo e normal. Deixa de ter a importância que procuramos que tenha quando o decretamos, qual lei-marcial que não pode ser de modo algum quebrado, a não ser pela nossa incrível benevolência.

Podemos evitar o confronto, o choque, se contornarmos os momentos de birra. Se os distrairmos. Se lhes tentarmos explicar, calmamente, que temos de fazer isto ou aquilo, agora, porque tem mesmo de ser.

Um exemplo do que acontece cá em casa é o momento da história antes de deitar, em que, não poucas vezes, a Leonor quer uma segunda história – a rapariga é mesmo viciada em histórias e livros (não sei a quem é que ela sai assim?!).

Há dias em que facilitamos e lemos a segunda história. Há outros em que não. Por vezes ela esboça a tentativa de uma pequena birrita… mas acaba por perceber que amanhã volta a ter história novamente. E sim, há dias em que a perde, porque se portou muito mal. Porque não ouviu os papás. Porque fez birras enoooooormes. E este é o sistema que consideramos ser o mais justo. Mesmo sabendo que erramos frequentemente.

E ela já vai dizendo, aqui e ali… “Mas papá, eu só estou a brincar”

Mas de quem é a culpa afinal?

A culpa?
A culpa é de todas as partes envolvidas.
Dos pais.
Das crianças.
Do mundo.
Da vida.

No fundo é isto.
Os adultos são responsáveis e sobre eles cai a responsabilidade inegável de terem de ser exemplos para as crianças.

É um papel difícil, duro, exigente, que não tira férias, mas que pode bem tornar-se na mais incrível e desafiante viagem de toda a nossa vida.

Conclusão

Somos tão imperfeitamente perfeitos que passamos semanas, meses, anos a tentar ser a versão mais incrível de nós próprios, esquecendo tantas vezes que o melhor de nós está na simplicidade, na verdade, na sinceridade com que encaramos os desafios dos dias e, mais do que qualquer outra coisa, com que construímos as relações que criamos com os nossos filhos.

Preocupemo-nos menos e pensemos, isso sim, em amar os nossos filhos e em fazer com que eles o sintam e saibam de cor.

O resto, o resto vem com o tempo. Como sempre.

2 Comments

  • Mafalda

    os dias de hoje , as crianças vivem rodeadas de regras de casa, regras da escola,regras da casa dos avós,dos tios ,e todas elas diferentes. Penso que seja difícil para uma cabecinha tão pequenina gerir está panóplia de regras, de saber estar, do “aqui posso fazer isto, mas ali já não posso”. Nesta fase, eles são como uma esponja, absorvem tudo o que os rodeia e penso que seja complicado toda esta gestão.

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  • Vera

    Gostei muito do texto. Sobretudo a parte da birra no banho. 😅

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